
Tataraneta de Hermann Hering — de quem herdei, pelo sangue, a potência inabalável da perseverança e a coragem inata para forjar recomeços —; trineta de Gertrud Gross-Hering — de quem recebi o dom da escrita, a altivez matriarcal e a inflexibilidade moral que jamais curva a espinha para adaptar a Verdade aos ditames de governos ou às conveniências de uma sociedade corrompida —; bisneta de Eva Gross Schelling — que foi quem sustentou, fortaleceu e reforçou no meu sangue a alta cultura, também foi quem impôs a autoconvicção soberana genética de desprezar o teatro das convenções sociais e de submeter o intelecto unicamente à Verdade —; neta de Ingeborg Vera von Hertwig (Schelling) — que enriqueceu meu sangue com o brilho de um humor inteligente ímpar e com o registro para a nutrição da minha alma por meio da capacidade e dedicação de estruturação, gestão e cuidados com o lar, sendo também a responsável por reforçar, intensificar e ampliar a formação clássica e integral feminina, e, principalmente, por entregar a herança da nobreza da feminilidade e da vocação materna —; e neta de Igor Francisco von Hertwig — responsável por registrar no meu código genético a profunda comunhão com a Ordem Natural, a potência curativa das plantas, a beleza aromática da natureza, a escrita poética, o humor de desenhos, textos e charadas ambíguas e extremamente sagazes —; filha de Bettina von Hertwig — que adocicou a linhagem ao adorná-la com a pureza de um coração sincero e humilde, embelezando-a com a contemplação singular das Artes e da Cultura e elevando a necessidade do Belo à condição de oxigênio, tornando a vida e a sobrevivência dependentes deste —; neta de Ida Trevisol Bittencourt (Baldessar Trevisol) e Eduardo Bittencourt — que somaram e intensificaram em minha herança o domínio amplo da medicina moderna, sendo que, exclusivamente de minha avó paterna, herdei a nobreza da submissão feminina e a firmeza moral inabalável na Fé Católica Apostólica Romana —; e filha de Ruy Trevisol Bittencourt — que afiou a lâmina e intensificou o entendimento amplo em saúde já presente na nossa linhagem, cravando e lapidando este tremendo conhecimento em meu intelecto desde o meu primeiro respiro, por meio da oralidade, de ensinamentos teóricos e do rigor da aplicação prática.
Este início pode te levar a pensar que eu tive uma vida amplamente segura e até mesmo privilegiada. Só que a realidade é completamente diferente. Eu sei que as pessoas do mundo moderno adoram ler sobre desgraça, antecipo que aqui não lhes entregarei o banquete que poderia ao — simplesmente — relatar como Deus me forjou desde quando fui concebida e por meio de tudo que Ele permitiu que acontecesse comigo ao longo do caminho. Falo isso porque apesar da minha história ser chocante, poder demonstrar superação a ponto de servir como pseudo motivação a alguém, minha moral é contrária à exposição das misérias alheias. E eu não preciso convencer ninguém de que eu vivi absurdos e que renasci pela Graça todas as vezes e fui fortalecida em cada vez que Deus me resgatou e cuidou de mim após eu experienciar a podridão do ser humano em diferentes escalas.
Pode ser que em algum momento da minha existência eu retome a escrita sobre a história da minha vida e, se conseguir concluí-la blindando os agentes tentados pelo maligno, eu a deixe para ser publicada mais pra frente ou após meu encontro com Deus na Eternidade. Neste espaço, o que importa não são os abismos pelos quais fui forçada a atravessar, mas a linhagem, a lucidez e a força que trago no meu Ser.
É natural que, a esta altura, você se pergunte sobre as minhas credenciais. A sociedade moderna é viciada em diplomas e cartilhas. A verdade que eu tenho a oferecer a você é que a minha formação real não cabe dentro desse sistema. Absorvi os meus saberes por meio da imersão nos ambientes que frequentei e por uma busca espontânea, ininterrupta e autodidata por conhecimentos dos mais variados. Possuo a capacidade inata de me autodirecionar, selecionando com rigor absoluto o que faz sentido e descartando sumariamente o que não faz. Tentei, por diversas vezes, enquadrar-me no ensino formal. Iniciei inúmeros cursos superiores, graduações e pós-graduações, mas desisti da esmagadora maioria deles. Não por falta de disciplina, mas pela absoluta impossibilidade de submeter a minha mente a um modelo educacional que sempre se revelou raso, entediante e, não raras vezes, impregnado de erros.
Por amor e obediência a Deus, solto todas as amarras que antes insistiam em me acorrentar. Vivi calada por décadas — a fim de evitar o constrangimento alheio e o fracasso contínuo das minhas tentativas de encontrar eco nas relações interpessoais. Pela minha sanidade mental, hoje rejeito as imposições de sufocamento social por não possuir as credenciais que tanto lhes agradam, bem como repudio o apedrejamento por aqueles que revidaram ao se sentirem agredidos pela minha alta capacidade de processamento e pela facilidade de exposição dos saberes infusos no meu Ser. O rastro dessa negação é amargo: em minha tentativa de ‘caber’ na planície e não assustar os outros, cheguei a deletar obras inteiras — de romances e críticas sociais a tratados e compêndios de saúde. A descoberta da superdotação profunda foi o meu ressurgir das cinzas; foi o que me permitiu cessar, finalmente, essa automutilação intelectual que fez adoecer o meu corpo nas últimas décadas.
Estou esgotada e não pedirei desculpas por ser quem sou, por saber o que sei, tampouco me acovardarei; se Deus me fez assim, há um propósito ao qual servirei com alegria e sem omissões. Portanto, este Grito de Lucidez nasce de uma necessidade pessoal real e como consequência de não encontrar pares para o diálogo constante e compartilhamento de interesses. Aviso que usarei este espaço como o registro público das minhas anotações, percepções, entendimentos, pensamentos e o que mais eu precise e/ou queira publicar.
Aos que ainda se encontram confusos sobre quem eu sou ou como funciono, lhes digo que podem me compreender como uma filósofa, movida pela inquietação de uma pensadora, que usa da escrita para atuar como intelectual.
Prazer,
Eva Schelling von Hertwig.
