A Tragédia do Intelecto em um Desabafo de um Sábado Chuvoso
Todo ser humano apresenta, por sua própria natureza, uma potência intelectiva, inerente à sua alma. Evidentemente, o exercício e a eficácia dessa potência correspondem à realidade formacional exclusiva de cada ser — e, ao falar de formação, refiro-me a tudo o que fez e faz aquele indivíduo ser quem se é: desde a natureza da sua composição hereditária ao ambiente no qual está inserido, incluindo seus costumes, sua alimentação e todas as demais influências possíveis de seu meio, de seus contatos e de suas experiências.
O movimento natural e esperado de todo intelecto é o caminhar em direção à Verdade. Mas, como tudo neste mundo vem sendo deturpado e nada é (re)definido de forma abrupta ou imposto de forma imediata, muito menos resulta do acaso, a ideia de que a busca inegociável pela Verdade é um potente gerador de intolerância é fruto de uma subversão proposital e muito bem trabalhada desde o Século XIII. Em um breve resgate cronológico, apenas para situarmos essa decadência no tempo, lembremos do Século XIII com a cisão da Verdade (o Averroísmo com a ‘Dupla Verdade’ e o Voluntarismo de Scotus); do Século XIV com a ruptura Nominalista de Ockham; do Século XV com a redução pragmática (o Renascimento e o desvio teleológico da Verdade); do Século XVI com a fragmentação subjetiva (a Reforma Protestante e a perda da ordem hermenêutica unificada, pulverizando o conceito de Verdade); do Século XVII com o dogma da tolerância (resposta política às ‘guerras de religião’, elegendo a tolerância como virtude suprema e substituta da Verdade); do Século XVIII com o muro epistemológico (Kant e o aprisionamento da razão humana aos fenômenos, como ontologicamente incapaz de apreensão da essência, condenando qualquer afirmação absoluta à arrogância dogmática); do Século XIX com a hermenêutica da suspeita (Nietzsche e outros pensadores favoráveis à destruição da adequação do intelecto); e, por fim, do Século XX com a institucionalização do Relativismo (a desconfiança como princípio social). Poderíamos ainda encarar essas crises medievais e modernas como um eco da antiguidade, ao lembrarmos dos Sofistas e dos Céticos (século V a.C. a III d.C.); e, se optássemos por voltar ainda mais, faríamos uma busca desde o início, começando por Adão e Eva.
É impressionantemente estarrecedor quando paramos para observar como esta avalanche se formou e como tem se comportado e aumentado ainda mais. Porque, a simples afirmação de que a busca pela Verdade torna o ser intolerante, pressupõe necessariamente também que a inteligência autêntica é frágil a ponto de se ofender com a discordância cívica. Essa ideia peca miseravelmente pelo simples fato de que quem ama a Verdade não teme o embate; o debate e a objeção são, para o amante da Verdade, instrumentos de lapidação e não ameaças. A recusa irada diante do pensamento contrário não descende da razão, mas de uma soberba doentia. O sábio tem lucidez e honestidade intelectual suficientes para admitir suas falhas e reconhecer outro pensamento como o correto; porém, se a premissa alheia for falsa, o autêntico intelectual fará questão de debater o assunto até esgotá-lo, esmiuçando e sanando cada argumento; sem nenhuma necessidade de apelar para um sentimentalismo histérico e nem para selvageria.
Ainda mais trágico é observar em ato a ascensão de uma hipocrisia travestida de virtude. Nesse cenário, uma suposta elite letrada estufa o peito para se gabar de sua erudição e sua classe por não recorrer à violência física ou aos gritos, mas, paradoxalmente, questiona a liberdade de pensamento quando vozes não acadêmicas ousam expor o que pensam, obviamente, sobre assuntos que não dominam — e as contradições desta casta não se restringem a este exemplo.
Desse elitismo ressentido, estruturou-se um verdadeiro mercado da vaidade que foi subdividido de acordo com objetivos e anseios particulares. Vemos os idólatras de si mesmos, que buscam enaltecimento pessoal e criam personagens para arrebanhar adoração e culto à personalidade; os mercadores de ilusão, que se aproveitam do triste vácuo educacional brasileiro para empacotar produtos introdutórios ou rasos e vendê-los como tesouros de sabedoria ímpar; e os falsos messias, que por meio de uma manipulação — que beira o diabólico — vendem a própria imagem e conhecimento como a via exclusiva para a recuperação e salvação do ser.
Em contraste absoluto a essa feira de ilusões, resiste uma minúscula e genuína parcela de verdadeiros intelectuais. Estes, movidos por amor e pela responsabilidade de disseminar a Verdade, distribuem tesouros abertamente e cobram valores acessíveis apenas por aquilo que exige aprofundamento mais íntimo, preservando a nobreza e a caridade do ofício de ensinar.
O cenário atual, no fim das contas, tornou-se um cabo de guerra aterrorizante por validação e dinheiro. Travam-se batalhas impiedosas de egos por trás de máscaras de benevolência, expondo a arrogância estéril de criaturas que se içaram a pedestais de ouro pelo simples fato de terem aprendido a recitar clássicos ou a operar a mecânica básica da lógica discursiva.
Nota:
Diferente dos meus ensaios habituais, decidi não erguer aqui a tradicional trincheira bibliográfica — afinal, trata-se de um desabafo rápido de sábado à tarde. No entanto, para os que desejam ir além do incômodo e buscar a raiz das questões aqui tratadas, recomendo a leitura de autores que enfrentaram a crise do pensamento com o devido rigor. Sugiro iniciar pelos estudos sobre o realismo clássico de Étienne Gilson e Josef Pieper, mergulhar na análise da virada moderna com Cornelio Fabro, e confrontar o relativismo contemporâneo com a solidez teológica e filosófica de Santo Tomás de Aquino e do Pe. Réginald Garrigou-Lagrange.
